Entrevista | Eiichiro Oda x Gosho Aoyama OVER 100 MIRACLE TALK (Parte 1)

Ano passado, One Piece e Detetive Conan chegaram à marca de 100 volumes. O diálogo milagroso entre os dois mangakás, que estão a frente da indústria de mangás por tantos anos, finalmente aconteceu!!

Anteriormente na Jump e na Sunday…

Em uma entrevista anterior, Aoyama-sensei disse que seria interessante ter uma conversa com Oda. Como camaradas que chegaram aos 100 volumes simultaneamente, adoraria conversar sobre várias coisas.

Oda-sensei respondeu em um comentário que “nunca o conheceu [Aoyama], mas sente que ele é como um amigo. Eu [Oda] sei como é difícil chegar a 100 volumes, Aoyama-san! Parabéns pelos 100 volumes de Conan!

E essa conversa épica finalmente está se tornando realidade.


Aoyama: Oda não aparece tanto assim, então é uma honra poder vê-lo de verdade, haha.

Oda: Já o Aoyama-san mostra o rosto em vários lugares. Estou realmente feliz, não achei que poderia conhecê-lo pessoalmente.

Aoyama: Nem eu, hahaha. Sempre pensei que nunca existiria um futuro em que eu pudesse te conhecer.

Oda: Eu fiquei bem impressionado antes porque o Editor Chefe da Weekly Shonen Jump me deu um cartão de visita. “Eu tenho um cartão de visita da Sunday! Esse tipo de coisa realmente acontece!”, hahaha.

WSJ: Estivemos procurando coisas que vocês têm em comum, e parece que Oda-sensei nasceu em 1975, e Aoyama-sensei nasceu em 1963. Vocês dois têm o mesmo signo, nascidos no Ano do Coelho.

Aoyama: É isso mesmo. Você conhece a lenda do Ano do Coelho? Tetsuya Chiba-sensei nasceu em 1939, e Mitsuru Adachi-sensei nasceu em 1951. Ambos nasceram no Ano do Coelho, separados por 12 anos. Eu nasci 12 anos depois de Mitsuru Adachi-sensei, e você nasceu 12 anos depois de mim. Não tem ninguém depois disso.

Oda: Queria que pudéssemos colocar o Akira Toriyama-sensei no meio de alguma forma, mas ele não pertence ao Ano do Coelho, hahaha. 
Eu preciso admitir que eu só conheço bastante sobre a Weekly Shonen Jump. Você conhece outras revistas, Aoyama-san?

Aoyama: Na verdade, não. Primeiro, eu levei meu trabalho na Weekly Shonen Magazine e me foi dito que “não encaixava com as publicações deles, então leve para outra editora”. Assim, levei meu trabalho para a Sunday e é onde estou até hoje.

Oda: Você fez sua estreia em 1986, né? O que era popular lá atrás, antes de você estrear?

Aoyama: Eu era um “garoto da Magazine”, então eu não lia muito Jump, mas mesmo assim eu adorava trabalhos como 1·2 no Sanshirou, de Makoto Kobayashi, e Ore wa Teppei, de Tetsuya Chiba. Se tratando da Sunday, eu só li Touch, do Mitsuru Adachi.

Oda: Eu também li Touch e Rough, também do Mitsuru Adachi.

Aoyama: Eu também me lembro de assistir ao anime de Urusei Yatsura, da Rumiko Takahashi.

Oda: Depois de começar, você serializou Magic Kaito, Yaiba e 3rd Base 4th, sendo Detetive Conan seu quarto trabalho.

Aoyama: Sim. Enquanto isso, você não fez nenhuma série além de One Piece?

Oda: Verdade. Eu sou um homem de um sucesso só.

Aoyama: Um homem de um sucesso só! Com um sucesso-extremamente-grande, hahaha

Oda: Quais outras séries estavam sendo feitas na Sunday quando você começou Detetive Conan?

Aoyama: Bom, foi um tempo realmente incrível. Ranma ½ da Rumiko Takahashi, Ushio to Tora, do Kazuhiro Fujta, H2 do Mitsuru Adachi, Kyou Kara Ore Wa, de Nishimori Hiroyuki… As séries eram absolutamente incríveis.

Oda: Eu li Ranma ½, era bem divertido! Só de ler revistas diferentes, não importando quanto tempo você gaste com isso, o que você lê ou vê é completamente diferente também. Lá atrás, quando Detetive Conan começou, a Jump tinha Dragon Ball, de Akira Toriyama e Slam Dunk, de Takehiko Inoue.

Aoyama: Eu li Dragon Ball! Amo a arte do Toriyama-sensei

Oda: Eu era um “jumper” na época, mas tem algo que eu sempre quis te perguntar se nos conhecêssemos: Como você via a Jump lá atrás? As vendas da Jump eram assustadoramente enormes naquela época, mas pouco depois teve um conflito quando a Weekly Shonen Magazine passou as vendas dos números de circulação.

Aoyama: Eu vou ter que me desculpar, mas eu não ligava pra isso, hahaha.

Oda: Ah, então você nem se preocupava, haha.

WSJ: Gostaríamos de perguntar sobre seus pensamentos e memórias lá atrás, quando suas séries começaram. Quando publicaram seus primeiros capítulos, como foi?

Oda: Eu comecei serializando One Piece em 1997, dois anos depois que Dragon Ball acabou, em 1995. Foi um choque para todos nós, novatos, que foram para a revista para clamar aquele trono abandonado. Naquele tempo, a luta pelo lugar que Dragon Ball deixou vago começaria, e, por dois anos, todos tiveram suas séries comparadas e completamente esmagadas, até que eu finalmente sobrevivi.

Aoyama: Que incrível, hahaha.

Oda: Foi um tempo que Dragon Ball e Slam Dunk acabaram, um após o outro, e várias pessoas da Jump estavam com grandes problemas. Eu lembro da capa da Jump que eu estreei na página de um jornal, mostrando One Piece do lado da manchete “Jump é ultrapassada pela Magazine”. Não que eu tenha responsabilidade por isso, haha, mas eu lembro que me senti muito frustrado.

Capa de estreia do primeiro capítulo de One Piece

Aoyama: Pra mim, quando o primeiro capítulo de Detetive Conan seria publicado, eu supostamente iria aparecer no centro da capa da revista. Mas, durante as preliminares da Copa do Mundo, Masashi Nakayama marcou um gol muito bonito e minha capa foi substituída por ele… É por isso que Conan, que supostamente deveria aparecer na capa do primeiro capítulo da série, teve o azar de só conseguir aparecer na capa no segundo capítulo, hahaha.

Capa de estreia com o primeiro capítulo de Detetive Conan

O ESPÍRITO COMPETITIVO DA JUMP

WSJ: O que vocês dois pensam um do outro e de outros mangakás que têm obras de sucesso?

Oda: Depois que Dragon Ball acabou, o mundo do mangá shonen foi dominado por duas obras. Detetive Conan e The Kindaichi Case Files. Conan sempre esteve ganhando.

Aoyama: Ah… Sério? Hahaha.

Oda: Esse era o meu ponto de vista. O mangá que recebia apoio da Jump na época era Samurai X, de Nobuhiro Watsuki. Eu fui um dos assistentes de Watsuki-sensei. Não vou hesitar em dizer que nós estávamos orgulhosos que nossos veteranos lideravam o mundo dos mangás shonen, com mangás focados em batalhas, então nós honestamente pensávamos “mangás de mistério não deveriam estar no topo dos mangás shonen”, hahaha.

Watsuki-sensei tinha a postura de “Se uma série não estiver vendendo que nem a dele, não pode estar no topo da Jump”. Por isso eu sempre considerei Detetive Conan como um inimigo, e nem lia. Eu inclusive já tive pensamentos tipo “Eu vou te derrubar”, hahaha. Sem brincadeira, eu costumava pensar em você como um inimigo até agora, hahah!

Aoyama: Não brinca, um inimigo?! Meu Deus, haha!

Oda: Pela sua resposta, parece que eu era o único que tinha algum tipo de rivalidade, haha. Por favor, fale algo como “na Jump deveria ser assim”! Nunca pensou em alguém como um rival?

Aoyama: Na verdade, não. Se tratando de The Kindaichi Case Files, de Kanari Yozaburo, Seimaru Amagi e Satou Fumiya, eu costumava pensar “Não vou perder”, mas ainda são séries com gêneros bem diferentes.

Oda: Quando eu olhava para a indústria de mangás como um todo, e olhava para o topo, Detetive Conan sempre esteve lá. Eu já sabia disso quando era nada mais do que um novato, mas é verdade que quando você chega ao topo, você não vê mais.

Aoyama: Mas eu fui superado em seguida, né? Ou estou errado? Haha.

Oda: Eu estava bem desesperado antes, então não tenho certeza de como foi. Desde que eu comecei a fazer minha série, tenho tentado fazer meu melhor pra mim mesmo, então parei de olhar meus arredores.

Aoyama: Isso é incrível, mas foi bem difícil pra mim também. Fazer uma série de detetives por conta própria requer sempre pensar sobre a história e a arte, o que me deixa sem tempo pra pensar sobre nenhuma outra série.

Oda: Basicamente, quando você começa uma serialização, você para de olhar o que está em sua volta! Eu tenho muito respeito por você, conseguindo continuar durante todo esse tempo.

WSJ: Vocês já pensaram em mangakás novatos como rivais?

Aoyama: Rivais? Eu me pergunto…. Acho que os outros são outros e eu sou eu, haha.

Oda: Você é muito pacifico. Quando você construiu essa mentalidade?

Aoyama: Eu diria que desde o começo.

Oda: Sério?! Não parecia uma competição pra você quando você era mais novo?

Aoyama: Quando eu era mais novo, outras séries de detetive começaram a aparecer na Sunday, quando Detetive Conan estava indo bem, então eu tinha o sentimento de “não querer perder”, mas era só isso. Pode soar estranho, mas eu acho que nunca vi alguém como um inimigo. Como mencionei antes, The Kindaichi Case Files estava lá, mas era um mangá diferente.

Oda: Vejo que seu espectro de inimigos são séries de mistério.

Aoyama: Sim. Mas ainda assim, não tinham muitos mangakás desenhando séries de mistério lá atrás, então eu sentia que estava fazendo algo por conta própria. Foi assim que concluí que os outros são outros e eu sou eu.

Oda: Pra mim, nos últimos anos, tenho chegado a um estado de espírito semelhante. Até agora, eu tenho visto leitores constantemente desapontados se One Piece não publicar um novo capítulo, e me sinto responsável por isso. Tudo mudou ultimamente graças aos novos escritores que cresceram na Jump e me apoiam mesmo quando estou em uma pausa, tirando um peso dos meus ombros. Foi por isso que parei de me importar em brigar com outras séries. Realmente parece que eu estou tendo a liberdade de encarar meus fãs no meu ritmo.

Aoyama: Ooh! Parece que você tem estado bem ocupado até agora.

Oda: Eu me pergunto o porquê. O sistema da Jump é assim tão ruim? Haha. É uma competição feroz. Se o que você faz não é bom o bastante, obviamente vai ser cancelado. Não é o mesmo na Sunday?

Aoyama: É sim. Mas na Sunday de antigamente, os editores não diziam aos mangakás o ranking de suas séries. Depois que Detetive Conan chegou no capítulo 10, eu tive que pedir pra eles me darem o ranking e comecei a segui-lo escondido.

Oda: Talvez a Jump mostre os rankings e questionários deliberadamente para os autores para elevar seu espírito de luta. É algo que qualquer um, até eu, se preocupa quando começa uma série, já que você sempre quer saber se você pode sobreviver ou não.

WSJ: Yaiba, sua serialização antes de Detetive Conan, chegou a alcançar o 1º lugar duas vezes em seus capítulos finais, certo?

Capa do mangá Yaiba, de Aoyama

Aoyama: Sim! Eu fiquei tão feliz de alcançar o 1º lugar que eu pedi para o departamento editorial colocar isso no meu caixão, já que eu tinha certeza que eu morreria de excesso de trabalho, haha.

Oda: Eu vejo que você tem um apego por números! Não sente nenhuma frustração se você não consegue essas colocações, então?

Aoyama: Sim, mas Detetive Conan tem ficado em 1º lugar desde que a série começou… então é meio odioso dizer isso, vou parar, hahaha

Oda: Hahaha, eu entendo essa sensação também.

WSJ: Quanta pressão vocês sentiram por carregar a bandeira de suas revistas por tanto tempo.

Aoyama: Pressão? Zero. hahaha.

Oda: Mesma coisa pra mim!

Aoyama: Tipo, eu acho que é culpa da Shogakukan por me deixarem desenhar essa série, hahaha

Oda: Sempre estive consciente do meu próprio egoísmo, então quanto mais o espírito de luta crescer, mais eu penso que seria exclusivamente minha culpa se a série chegar ao fim ou cair em popularidade.

WSJ: Isso é difícil de imaginar!

Aoyama: Honestamente, se eu sentisse essa pressão não seria capaz de desenhar.

Oda: Sim. Se você para pra pensar por um segundo, é meio assustador o tanto de coisas que eu preciso carregar às vezes. Eu acho que só as pessoas com nosso tipo de personalidade podem sobreviver por tudo isso.

Aoyama: Acho isso também.

WSJ: O que vocês pensam da arte um do outro?

Oda: É atrativa. É super atrativa! Mesmo que meu único conhecimento fosse sobre a arte, eu acho ela realmente única. Honestamente, estilos distintos e únicos são os que conseguem sobreviver nesse mundo dos mangás. E não só isso, mas quando eu lia a série, eu sentia uma atração misteriosa. Crianças, adultos, homens e mulheres podem sentir todos o mesmo charme e se apegar a série, por isso sempre pensei que ela se tornaria um sucesso.

Aoyama: Eu fiquei realmente surpreso quando eu vi que não tinha uma cena do Luffy comendo a Gomu Gomu no Mi! Se fosse eu desenhando, eu faria uma onomatopeia “Dokkun” logo depois dele comer, haha. Em Detetive Conan, o protagonista também muda seu corpo depois de consumir uma droga, mas mesmo que eu tentasse desenhar essas mesmas sensações, acho que as expressões de One Piece parecem muito mais maduras. Os designs idosos dos Gorosei que aparecem no Reverie são fantásticos! Honestamente, não sei como desenhar aquilo.

Oda: Acho que é algo bom do meu eu mais jovem. Fiz eles aparecerem muito tempo atrás, mas quando olho pra eles agora, não acho o design deles nenhum pouco ruim. Ainda assim, esses personagens não mostraram seu verdadeiro potencial ainda.


TIME DETETIVE CONAN X TIME ONE PIECE

WSJ: Quando se trata de anime, várias vozes acabam aparecendo em ambos. Yamaguchi Kappei faz Shinichi Kudo, Kaito Kid e Usopp; Ikeda Shuichi dá voz a Akai e Shanks; Furuya Toru é Amuro e Sabu; Ootani Ikue é Mitsuhiko e Chopper…

Aoyama: Não me admira que apareçam, se considerarmos que ambos os animes estão sendo lançados a 25 anos.

Oda: Quando eu vi Detective Conan: The Bride of Halloween, eu fiquei surpreso com quantas vozes eu reconheci. Yuriko Yamaguchi, que interpreta Nico Robin, aparece (como Christine Richard). No arco de Dressrossa tem vários atores que aparecem em Detetive Conan! Megumi Hayashibara, que faz a voz de Ai Haibara, interpretou Rebecca.

Aoyama: Furuya Toru, que faz a voz de Amuro, também aparece como Sabo, num ótimo papel! E Ikeda Shuichi que interpreta o Shanks no seu próximo filme One Piece Red, né, Oda? Ele também interpreta Akai Shuichi em Detetive Conan, que é um papel muito popular.

Oda: Ele não apareceu em seu último filme, né?

Aoyama: Em “The Bride of Halloween”… Fufufu, haha.

Oda: Mas em Detetive Conan ele aparece mais frequentemente, né? Em One Piece, muitas vezes os membros do grupo precisam se separar, então temos vários exemplos de personagens regulares cujos atores tiram férias constantemente. O Sanji veio a ser interpretado pela primeira vez depois de 3 anos, hahaha.

Aoyama: Faz 7 anos desde que Akai saiu e reapareceu, e eu mesmo pensei em dar um spoiler disso depois de 2 anos. Vermouth também demorou 5 anos para aparecer de novo no anime, depois de sua última aparição.

Oda: Eu não espero que o anime continue por muito tempo, pois muitos dos atores estão ficando velhos. Algum tempo atrás, Mayumi Tanaka, que faz a voz do Luffy, nos perguntou sobre preocupações sobre o que aconteceria se ela morresse, então Masako Nozawa, que faz a voz da Kureha, disse a ela: “Se você morrer, seu papel é meu”, haha. Eu espero que todos possam continuar tão saudáveis quanto possível. Aoyama-san, você conversa com os atores de voz geralmente?

Aoyama: Antes do Coronavírus, nós tínhamos festas de lançamento dos filmes, então conversávamos muito. Algum tempo depois, eu vi alguns fogos de artifício sendo preparados, então chamei todos os atores e improvisei um grande banquete na minha casa. Foi bem divertido, apesar de bastante trabalhoso, haha. Você continua fazendo isso né, Oda? Isso é incrível.

Oda: Geralmente fazemos só um self-service, então eu falo que estou fazendo uma festa de takoyaki! Eu cozinho tudo sem falar com os outros, haha!

WSJ: Oda-sensei, você disse em uma entrevista antiga que você é “grato por ser próximo com a equipe do anime”, e tudo isso passa a impressão de que você sai com a equipe de animação e produção mesmo.

Oda: Sim, sempre foi assim. O anime começou há muito tempo. Todos eles já viraram familiares a esse ponto. Até meus filhos conhecem eles desde pequenos, então é quase como uma relação familiar.

Aoyama: A minha não é tão longe de uma relação também, mas já falei várias vezes que “esse ator deve interpretar esse personagem”. Por exemplo, Koichi Yamadera, que interpretou Tsutomu Akai, um personagem que recentemente apareceu no anime, foi escolhido por mim. Às vezes mudo os personagens no mangá depois de ouvir as vozes dos atores de voz, pensando comigo mesmo “Então essa é a voz do personagem”.

Oda: Eu mudei o papel do Chopper para o personagem mascote do grupo depois de ouvir a voz no anime. Apesar de ter uma política de não fazer personagens mascotes, a voz da Ootani Ikue é tão fofa, haha.

Aoyama: Foi o mesmo comigo! Quando eu ouvi a voz da Ootani como Mitsuhiko, eu pensei que era tão fofa que eu precisava fazer a personagem dela mais fofa.

Oda: Aoyama-san, você também sobrepõe os nomes dos atores com seus papéis, né? Como Takagi ou Furuya.

Aoyama: Wataru Takagi tinha um papel sem nome na época, mas quando seu personagem apareceu no anime, se tornou o Detetive Takagi porque ele se apresentou falando “Por favor, me chame de Takagi”. Fiz ele ter essa responsabilidade e até aparecer na série com seu nome de verdade, haha. O caso de Furuya Toru é, na verdade, uma homenagem a Amuro Rei, de Gundam, que eu separei para criar dois nomes: Furuya Rei e Amuro Toru. Espero que os fãs de Gundam gostem. Você assistiu Gundam, Oda?

Oda:  Eu vi e gostei, mas acho que as experiências que tivemos com Gundam são bem diferentes.

Aoyama: Entendo, então você não viu o Primeiro Gundam (Mobile Suit Gundam)?

Oda: Não, foi com o primeiro Gundam mesmo. O boom da série aconteceu na sua época de adolescente, Aoyama-san, e, depois disso, quando eu era criança, um segundo boom veio. Acho que essas reprises sempre foram uma tendência.

WSJ: Como vocês dois se envolvem com seus filmes?

Aoyama: Eu me envolvo desde o começo do filme. Dos cenários ao conteúdo, até estar completamente envolvido e ser quase desaprovado, haha.

Oda: Detetive Conan tem um filme novo todo ano, né? Me pergunto se a natureza descontínua da história na série é o que faz isso funcionar tão bem, já que no meu caso todo capítulo é conectado ao outro. Tenho que constantemente pensar na história em uma serialização semanal, então eu realmente não posso pensar em outras histórias. Acho que nossos cérebros funcionam diferentes.

Aoyama: Geralmente, um caso dura 3 a 6 capítulos em Detetive Conan, o que deixa mais fácil o planejamento de algum filme. Mas em One Piece, qualquer arco dura demais, haha. A duração pode ser o que dificulta a série em ter mais filmes. Parece ser bem difícil fazer uma história secundária para uma ilha diferente, quando todos os personagens já estão em suas jornadas para encontrar o One Piece.

Oda: Não apenas isso, mas os companheiros do navio continuam crescendo, então qualquer arco que aconteça que não seja só uma reação, só fará a história crescer. Vamos pensar assim, se o número de detetives em Detetive Conan crescesse, isso não te daria problema?

Aoyama: Eu realmente não quero aumentar o grupo de detetives… Hahahaha, eu definitivamente não vou aumentá-lo.

WSJ: Quais foram suas experiências vendo os filmes uns dos outros?

Oda: The Bride of Halloween foi muito legal! Fiquei surpreso quando ouvi que Detetive Conan estava tendo mais leitoras mulheres, já que eu sempre achei que era um mangá shonen em que um monte de garotinhos resolvem casos. Eu me perguntava o porquê, e quando eu vi o filme entendi perfeitamente. “Ah, então eles realmente gostam dos policiais e todos esses adultos lindos”.

Pôster do filme Detective Conan: The Bride of Halloween

Aoyama:  De todos os filmes do Oda, o que eu mais gostei foi One Piece Film Gold. Foi muito divertido já que eu gosto de lugares brilhantes estilo Las Vegas, haha. Eu quero ir àquele navio Cassino, o Gran Tesoro!

Pôster do filme One Piece Film Gold

Oda: Sério?! Obrigado!

Aoyama: Se eu tiver que dizer algo que todos os nossos filmes têm em comum é que, tanto em One Piece quanto em Detetive Conan, sempre tem uma expansão no final.

Oda: Esse é o jeito clássico e correto da estrada real do mangá shonen, não é?

Aoyama: Ah não, não estou falando da expansão da narrativa. Em Detetive Conan, expandimos bolas de futebol e, em One Piece, Luffy expande o próprio corpo. Quanto maior, mais animador é!

Oda: Ah, então isso é o que você quis dizer, haha. Maior é sempre a justiça, acho que é bem claro que ambos viemos da era de Ultraman.

Aoyama: Lembro que no Film Gold, tem tartarugas movendo carros na Corrida de Carros Tartarugas. Você quem tem essas ideias?

Oda: Eu geralmente deixo todas as ideias com os roteiristas, e eu só checo o conteúdo do filme e corrijo o que precisa ser corrigido. Os filmes pertencem aos diretores, então isso é algo que eu não deveria estar fazendo, mas se eu não fizer nada, não posso ter responsabilidade. Você desenha keyframes dos seus filmes, certo?

Aoyama: Eu faço esse papel desde o primeiro filme, The Time Bombed Skyscraper, e o trabalho tem crescido constantemente. Esse ano, desenhei por volta de 20 keyframes.

Oda: Tenho certeza que os fãs vão reconhecer quais foram desenhados por você!

Aoyama: Você poderia desenhar keyframes dos filmes também, Oda.

Oda: Se eu colocar muito esforço nos filmes, não consigo continuar regularmente com a série, então é difícil dar conta. Eu sei que, para manter a série popular, preciso atrair novos fãs e gerar um burburinho mundial com um filme pelo menos uma vez a cada três anos, mas é honestamente muito difícil! Eu também sei que, se eu precisar fazer algo assim, serei bem preciso, e estou ciente da minha personalidade, mesmo que eu não goste disso, hahah. No fim, eu me intrometo até na parte publicitária, checo os livrinhos de brinde dos filmes e sua produção, prazos, e supervisiono tudo. Também fico de olho nos layouts dos posters e designs.

Aoyama: Você realmente ama isso, hahaha

Oda: Ainda assim, eu me sinto mal pelos meus mangakás novatos. Eu criei uma cultura na Jump na qual o filme será um sucesso se o criador original se envolver, então todo mundo começou a ser emprestado para trabalhar para eles. Pra minha surpresa, os mais jovens estão realmente gostando.

Aoyama: No geral, eu acho que é muito bom! Todos parecem estar curtindo!

WSJ: O que pensam de seus protagonistas?

Aoyama: Conan é o organizador de todo mundo.

Oda: Luffy é o personagem mais fácil de desenhar. Sempre soube que ele seria o personagem que ficaria mais tempo comigo.

WSJ: Se é assim, que personagem vocês acham que só vocês conseguiriam escrevê-lo?

Oda: Continua sendo o Luffy. Muitos roteiristas tentam lidar com ele, mas eu tenho que corrigir suas frases toda hora, se não as pessoas não aceitariam ele como o Luffy que elas conhecem. Detetive Conan tem um personagem assim? Um personagem que sempre precisa ter suas frases corrigidas?

Aoyama: No meu mangá, seria o Gin! Todo mundo sempre tenta fazer ele dizer “Eu vou matar todo mundo” e eu tenho que dizer a eles “Não, ele não falaria isso”, hahaha.

Oda: Eu entendo que o personagem que nós mais temos que corrigir em qualquer filme é o mesmo personagem que só nós conseguimos escrever. É uma relação estranha, não é? Da perspectiva de um leitor, você pode perceber pequenos detalhes e mudanças se o personagem agir diferente, mas como escritor sente que é um personagem completamente diferente.

Aoyama: Eu sempre tenho que corrigir 100% do Gin. Ultimamente, os roteiristas só me dão o roteiro para que eu possa diretamente corrigi-lo hahaha. Às vezes, tem uma mensagem quase como uma comédia romântica escrito “Aoyama-sensei, me salva” e eu fico “Hãã? Sério?”, haha.

Oda: Então você imediatamente o arruma, o filme vira um sucesso e eles continuam contando contigo.

Aoyama: Exato, haha. Mas me deixa feliz que eles possam contar comigo!


PONTO DECISIVO DE ONE PIECE E DETETIVE CONAN

WSJ: Se olharem para os mais de 100 volumes que vocês publicaram, qual diria que é o ponto decisivo de suas séries?

Página a qual Aoyama se refere.
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Aoyama: É difícil dizer, mas se eu pudesse escolher um ponto seria o capítulo que eu escrevi quando tive alta no hospital, depois de tirar uma pausa devido a um problema de saúde repentino. O capítulo começa com Akai e Amuro apontando suas armas um para o outro (Volume 95, Capítulo 1009).

Oda: Isso parece tão legal! Quando foi lançado esse capítulo?

Aoyama: Quatro anos atrás. Eu tirei uma longa pausa, então para meu retorno precisava desenhar algo popular, o que me levou a fazer essa cena legal. Mesmo que eu não tenha realmente escrito nada na série que levasse a esse momento.

Oda: Eu sinto o mesmo que você, mas meu ponto decisivo seria algo mais recente. Luffy ganhou um novo power-up chamado Gear 5th, que é algo que eu queria desenhar há muito tempo.

WSJ: É surpreendente vocês dois escolherem momentos tão recentes. Em One Piece, no capítulo 1044, o verdadeiro nome da Gomu Gomu no Mi foi revelado e o Gear 5th apareceu, fazendo com que a luta do Luffy mudasse todo seu corpo.

Luffy desperta o Gear 5th ©SHUEISHA INC. ALL RIGHTS RESERVED.

Oda: Eu desenhei isso porque eu queria me divertir, e acho que é ok se as pessoas não gostarem. Eu só quero brincar com as minhas batalhas. Desde que eu era um assistente, eu acho que essas expressões bobas, que eram tão características em mangás, foram sumindo aos poucos. Colocar uma lâmpada na cabeça de um personagem quando ele tiver alguma ideia, ou fazer as pernas dos personagens ficarem em círculos quando eles estiverem correndo, por exemplo.

Aoyama: Sim, os olhos saltando também.

Oda: Eu sempre amei essas expressões simbólicas, mas elas continuam desaparecendo. Ninguém mais desenha elas, mesmo que sejam criações dos nossos antecessores, que também deixaram várias fórmulas que ainda usamos. Mangás de batalha precisam ficar mais e mais sérios para manter a expectativa dos leitores e eu honestamente odeio isso. Eu definitivamente não quero que meu trabalho vire um mangá sério assim. Eu quero e decidi me divertir, e sinto que finalmente sou capaz de fazer isso. Quando eu desenhei isso, eu me diverti.

Aoyama: (Olhando para as fotos do Gear 5th) Uau, incrível! Eu realmente gostei desse design, é excelente! Também estou impressionado que você consegue desenhar esse tipo de rosto.

Oda: Obrigado. Quando você pensa no conceito, pode pensar que de repente virou Tom & Jerry.

Aoyama: Sim sim, eu gosto de Tom & Jerry. Só não consigo perdoar o Jerry, hahaha.

Oda: Jerry? Ah não, eu estou do lado do Jerry!

Aoyama: Sério? Tom sempre tentava muito, mas o Jerry sempre era muito sorrateiro. Eu odeio muito o Jerry. Embora se eu fosse comparar um deles ao Conan, ele provavelmente seria o Jerry, haha.

Oda: Quando eu tentei desenhar isso pela primeira vez, foi bem difícil. O mundo de Tom & Jerry funciona por causa de ambos os personagens, então eu me esforcei muito vendo a diferença de atitude do Luffy, que estava fazendo piadinhas no meio da batalha, e seu oponente sério. Mas no fim, eu sinto que consegui fazê-lo bem. Quanto mais velho você fica, mais difícil e mais cansativo é desenhar batalhas, não é?

Aoyama: Bom, não existem muitas cenas de batalhas ou de ação em Detetive Conan, então, quando eu tenho que desenhá-las, eu faço com gosto. Ainda assim, acabam bem rápido considerando que estão apenas jogando bolas de futebol. Um tempo atrás, eu cansei de fazê-las, quando publicava Yaiba. Quando o Arquipélago do Japão virou um Dragão, foi difícil para eu e meus assistentes fazer esses desenhos. Mesmo assim, desenhar cenas de ação é uma experiência divertida.


IMPORTANTE: Todo o conteúdo da entrevista aqui descrita é de propriedade da Weekly Shonen Jump e da editora Shueisha. A reprodução deste conteúdo se dá apenas a fim de divulgação das informações assim descritas. Todos os direitos são reservados à editora Shueisha. Todas as imagens e ilustrações são de propriedade e direito das suas respectivas editoras e autores. Créditos de tradução do japonês para o inglês das páginas do twitter @WSJ_manga e @Wsstalkback.

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