Pausa para um café | Drive my car

Ela sempre rouba algo do quarto quando sai. Um lápis ou algo que ele não notará. Em troca, ela deixa algo de si mesma. […] Ela sente que os dois estão se misturando gradualmente com a troca destes itens.

Baseado no conto de Haruki Murakami, renomado autor japonês conhecido pela sua trilogia 1Q84 e Kafka à beira-mar, Drive My Car (Doraibo mai ka, 2021) é escrito e dirigido por Ryûsuke Hamaguchi e está sendo um dos grandes destaques do Oscar neste ano, sendo indicado para quatro categorias da premiação: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Filme Internacional. Também foi vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme de língua não inglesa e de Melhor Roteiro em Cannes, festival onde teve sua estreia em 2021.

O cinema oriental tem ganhado foco nas premiações nos últimos anos. Como bem disse Bong Joon Ho, o ocidente irá descobrir um universo vasto quando romper a barreira das legendas. E o destaque para Drive My Car evidencia isso.

Com suas 2h59 de duração, Doraibo (posso chamar carinhosamente o filme dessa forma?) tem um ritmo lento e silencioso. Os detalhes e as reflexões nos diálogos e pequenos atos são os pontos fortes da narrativa, que te envolvem e te prendem de forma ímpar.


Em Drive My Car acompanhamos Kafuku, exímio ator que está encarregado de conduzir uma importante peça teatral num festival em Hiroshima. No tempo que está na cidade, Kafuku irá precisar de uma motorista particular para dirigir seu carro e, ao mesmo tempo em que trabalha em sua peça, enfrenta e revive seus traumas do passado nas suas viagens pela cidade.


É uma tarefa complicada resumir o enredo de Doraibo em poucas palavras, uma vez que as histórias são interligadas e intrinsecamente relacionadas. Podemos dividir a trama em três partes de um enredo que se completam e se cruzam: a relação de Kafuku com sua (falecida) esposa; a conexão com o teatro e com a peça a ser representada; e a relação que estabelece com Watari, sua jovem motorista.

Os fatos narrados no filme acontecem, em sua maioria, após o falecimento de Oto, esposa de Kafuku. Logo no começo da película, temos um tempo de introdução, nos últimos dias de vida da esposa, onde podemos ver a relação dos dois e toda a problemática deste casamento. Essa primeira parte dura quarenta minutos de tela e só após esse tempo que os créditos iniciais do filme são mostrados, marcando como o início da película aquele momento avançado no tempo. Isso já exemplifica e marca um pouco do ritmo do longa.

Num recorte preciso da vida, Drive My Car é uma crônica sobre o amor, a perda e a aceitação. Sem diálogos expositivos, o longa transmite suas mensagens de forma artística, com sutileza, pelos detalhes. Os diálogos são fundamentais, e profundos, e algo que chama a atenção e enobrece essa narrativa é a forma com que todas as falas da peça de teatro Tio Vânia, a qual Kafuku dedicou sua vida e ensaia diariamente nas viagens de carro, se encaixam dentro do espectro geral dos acontecimentos.

A citação que inicia essa análise é dos primeiros minutos do filme, e o diálogo que se dá entre a esposa e Kafuku me encantou bastante. Claro que, naquele primeiro momento, não fica explicado sobre o que é que estão falando, mas depois de encerrado o filme, revisitei a cena e ela ganhou um outro significado. Drive my Car é todo assim, montado sobre pontos de vistas, e talvez seja essa a maior marca do longa, herança de seu conto original.

Kafuku não pode mais dirigir pois possui um “ponto cego” devido ao avanço de um glaucoma. Esse ponto cego é uma metáfora explorada na narrativa de Haruki Murakami e fica evidente que, no filme, o diretor também deixa essa mensagem, mesmo que tenha tido uma grande liberdade criativa na adaptação. O filme não é um retrato exato do conto, e isso é uma boa. A conexão com os personagens, a peça teatral e toda a atmosfera melancólica que permeia o filme são acertos do audiovisual, pois não senti isto presente na leitura do conto.

Diferente do conto, onde a necessidade do Kafuku por uma motorista é justificada pelo seu problema de visão, no filme isso não fica explícito (dado a pouca exposição do roteiro – e isso é um ponto mega positivo). O fato da motorista ser mulher parece incomodar Kafuku, que nega bastante a presença de uma motorista , fato que no livro ele aceita de pronto.

Outra diferença substancial é sobre Watari, a motorista, que tem a mesma idade que a filha falecida de Kafuku. Embora no filme ele cite que perdeu a filha há mais de 20 anos, essa relação não fica tão evidente quanto no livro. E, ainda no filme, cria-se uma tensão romântica entre os protagonistas, coisa que não existe no conto original.

Os protagonistas se aproximam o longo da narrativa, compartilhando do mesmo silêncio e das mesmas dores. Aos poucos, vão se abrindo e percebem que seus traumas são parecidos. Kafuku está tão imerso em seu luto e seu trabalho que demora a perceber que Watari também sofre, e esse sofrimento aproxima os dois.

Aqueles que sobrevivem continuam pensando nos mortos. De uma forma ou de outra, isso irá continuar. Eu e você, temos que continuar vivos. Temos que continuar vivendo.

Em contrapartida, um acerto imenso do filme foi o foco narrativo na peça de teatro Tio Vânia, encenada pelo protagonista. Adaptada do russo Tchécov, Vânia mexe com as pessoas. Kafuku viveu seu personagem, envolvido no enredo, transformou-se nele e viu sua vida refletida no teatro, nas falas e nos ensaios das palavras de Tchécov. O drama com a esposa, a rivalidade com outros homens, o encantamento por uma mulher mais jovem. Essas foram escolhas de roteiro que não pertenciam num primeiro momento ao conto original, embora o conto cite a peça, e foram muito bem acertadas.

O protagonista encara seus traumas e revive suas lembranças, por meio das fitas cassetes gravadas por sua esposa com as falas narradas da peça, que ele toca diariamente nas viagens de carro com Watari. O teatro faz parte de sua vida de tal forma que ele não consegue se desvincular de Vânia, e vive esse personagem além dos palcos.

Hidetoshi Nishijima (Kamen Rider Black Sun e Kanikosen) foi uma excelente escolha para o papel de Kafuku. Todas as atuações, além da produção de Drive My Car, são incríveis e fazem jus a suas indicações e premiações. O cinema oriental, e principalmente o japonês, tem um potencial incrível. Falta reconhecimento da Academia e das demais instituições que compõe o circuito de premiações internacionais, mas é um caminho que as produções orientais estão trilhando com muito sucesso.

Drive My Car poderá ser assistido no Brasil em breve nas plataformas MUBI e HBO Max. Como dito, é um longa com um ritmo próprio e diálogos reflexivos, mas é uma experiência incrível. O conto original funciona por si só, mas a adaptação cinematográfica enriquece a narrativa e explora pontos delicados e profundos com precisão e delicadeza.


Drive My Car (2021)

2h 57min / Drama, Romance

Direção: Ryusuke Hamaguchi

Roteiro: Ryusuke Hamaguchi, Takamasa Oe

Elenco: Hidetoshi Nishijima, Toko Miura, Masaki Okada

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